Saturday, February 24, 2007

Tombo

Madeira fresca, amadurecida, é essa no chão do teatro. Estão a ver as negas. O eco dos passos batem, respaldam, sucessivos. Pintadas numa grande tela branca, borram o tecido com o marrom da pele, almiscarado com pano branco, em bordas negras. Um vaso em cada cabeça cabloca. Pendem flores, inidentificáveis, mas belas.
- Ei, olha aqui, a nega. – Abraçou pouco a baixo da cintura e suspendeu, pouco acima de si. – Olha a flor da nega. – Caminhou outros dois passos para a esquerda e mostrou a flor da outra nega. Levou devolta ao chão e olhou com carinho, sentindo no toque das mãos a pele de ambos os braços. Encostou-se mais, e fez uma inspiração tênue e contínua, na altura do rosto. Uma mecha de cabelos pendia sobre olho e bochecha direita, até a altura do lábio superior. Apalpou-os com indicador e polegar, e fez deslizar até a origem. Agrado compensado. Entretida, aproximou o rosto.
- Se beijar, eu caio – Disse com voz grave, amansiado. Iluminada em luz fraca, no movimento rápido do pescoço, beliscou na boca oposta, sem força. E tombou, como prometido. Braços estendidos e joelho flexionado; não se machucou. Levou ela as mãos até a boca, com espanto e riso. Mais riso que espanto, no entanto. Fez ela, também, exclamações de ternura, até ser agarrada no tornozelo, pela mão esquerda. Pediu a ela que se sentasse, bem ao lado. Assim foi feito. Joelhos dobrados, dorso e cotovelo apoiados ao peito no chão. Vento fresco; lá vem noite, escuridão.

No comments:

Post a Comment