Vim sorrindo horas a fio.
Ao fio da estrada
fio de poste que vem luz,
há luz no vazio.
E não há mais paz
que não seja para dois;
no intervalo e a fluidez,
entremeada.
É paz descontínua.
É mútua, assegurada.
Wednesday, March 05, 2008
Saturday, August 11, 2007
Acordata
Relento feito, nítido ao sombrio, revolto e relido à sombra do rochedo que recobre as ruínas do mar de outrora, o navegado às velas. Com simplicidade descrítivel, um objeto se desdobra das entranhas da areia revolvida, em meio aos retalhos de rocha, e se revela ao luar. Nos entalhes da madeira escura e inconsistente se mostram as reentrâncias carnudas do que remonta às já esquecidas cirscuntâncias de outro equilíbrio; do além-mar, do além-irregressível, este o qual os círculos se fecham inexpurgáveis, com seletividade às influências externas, na pureza desobedecida.
Saturday, February 24, 2007
Tombo
Madeira fresca, amadurecida, é essa no chão do teatro. Estão a ver as negas. O eco dos passos batem, respaldam, sucessivos. Pintadas numa grande tela branca, borram o tecido com o marrom da pele, almiscarado com pano branco, em bordas negras. Um vaso em cada cabeça cabloca. Pendem flores, inidentificáveis, mas belas.
- Ei, olha aqui, a nega. – Abraçou pouco a baixo da cintura e suspendeu, pouco acima de si. – Olha a flor da nega. – Caminhou outros dois passos para a esquerda e mostrou a flor da outra nega. Levou devolta ao chão e olhou com carinho, sentindo no toque das mãos a pele de ambos os braços. Encostou-se mais, e fez uma inspiração tênue e contínua, na altura do rosto. Uma mecha de cabelos pendia sobre olho e bochecha direita, até a altura do lábio superior. Apalpou-os com indicador e polegar, e fez deslizar até a origem. Agrado compensado. Entretida, aproximou o rosto.
- Se beijar, eu caio – Disse com voz grave, amansiado. Iluminada em luz fraca, no movimento rápido do pescoço, beliscou na boca oposta, sem força. E tombou, como prometido. Braços estendidos e joelho flexionado; não se machucou. Levou ela as mãos até a boca, com espanto e riso. Mais riso que espanto, no entanto. Fez ela, também, exclamações de ternura, até ser agarrada no tornozelo, pela mão esquerda. Pediu a ela que se sentasse, bem ao lado. Assim foi feito. Joelhos dobrados, dorso e cotovelo apoiados ao peito no chão. Vento fresco; lá vem noite, escuridão.
- Ei, olha aqui, a nega. – Abraçou pouco a baixo da cintura e suspendeu, pouco acima de si. – Olha a flor da nega. – Caminhou outros dois passos para a esquerda e mostrou a flor da outra nega. Levou devolta ao chão e olhou com carinho, sentindo no toque das mãos a pele de ambos os braços. Encostou-se mais, e fez uma inspiração tênue e contínua, na altura do rosto. Uma mecha de cabelos pendia sobre olho e bochecha direita, até a altura do lábio superior. Apalpou-os com indicador e polegar, e fez deslizar até a origem. Agrado compensado. Entretida, aproximou o rosto.
- Se beijar, eu caio – Disse com voz grave, amansiado. Iluminada em luz fraca, no movimento rápido do pescoço, beliscou na boca oposta, sem força. E tombou, como prometido. Braços estendidos e joelho flexionado; não se machucou. Levou ela as mãos até a boca, com espanto e riso. Mais riso que espanto, no entanto. Fez ela, também, exclamações de ternura, até ser agarrada no tornozelo, pela mão esquerda. Pediu a ela que se sentasse, bem ao lado. Assim foi feito. Joelhos dobrados, dorso e cotovelo apoiados ao peito no chão. Vento fresco; lá vem noite, escuridão.
Monday, October 30, 2006
Do mar
Vê-te. Não veda o teu fogo a ascender. Mostra-te Altivo, nulo, fugaz, irrisório.
Faz logo da Arte o ofício! Não prende, acorrenta. Não acomoda, molesta. Liberta! Liberta!
Cadê tua bruma, timoneiro? Faz o que te convém?
Tua gola já não te acomoda?
Trouxe-a de onde ontem esteve. Hoje já teu remo quebrou.
Via-te onde não havia espelho sequer, até então.
Que fez? Ainda jaz inerte e passivo.
Escolhe. Deixa-te consumir pela distorção, ou zomba dela.
Faz logo da Arte o ofício! Não prende, acorrenta. Não acomoda, molesta. Liberta! Liberta!
Cadê tua bruma, timoneiro? Faz o que te convém?
Tua gola já não te acomoda?
Trouxe-a de onde ontem esteve. Hoje já teu remo quebrou.
Via-te onde não havia espelho sequer, até então.
Que fez? Ainda jaz inerte e passivo.
Escolhe. Deixa-te consumir pela distorção, ou zomba dela.
Monday, September 04, 2006
Cinza-Inerte
Acinzentei.
Não fumo, não cavo. Ainda assim
Acinzentei.
Descolori reto, contínuo
Sem sombra de desvio,
Sem desvio na minha sombra.
Meu caminho
Liso, Nulo
No semblante dos lábios
Linha Reta, não meia-lua
E a lua cheia também
Já não brilha nos olhos,
Desviou do caminho
Acinzentou.
Se Equilibrou, alva e pura. E ainda assim
Acinzentou.
Não fumo, não cavo. Ainda assim
Acinzentei.
Descolori reto, contínuo
Sem sombra de desvio,
Sem desvio na minha sombra.
Meu caminho
Liso, Nulo
No semblante dos lábios
Linha Reta, não meia-lua
E a lua cheia também
Já não brilha nos olhos,
Desviou do caminho
Acinzentou.
Se Equilibrou, alva e pura. E ainda assim
Acinzentou.
Tuesday, March 28, 2006
Só
Só saudades... de um inverno limpo e águas cristalinas. Num lugar onde o sentimento das circunstancias é pleno e tangível, porém nunca alcançado por aqueles que não lhe cedem primazia. Lá, o ar flui solene pelas narinas, e o que os olhos veem, o que na pele se sente, sem demoras no coração toca. Solo para as melhores das artes humanas (que são sempre sussetíveis à sina da índole do homem, mas que, porém, continuam sendo arte). Que então se abra uma pequena cova no solo, por entre bétulas, araucárias e imbuias. Toca-se no solo, e de imediato se sente o aroma úmido guardado de muitos anos de descanço no vale. A simples presença do homem foi sua sina, e o legado deixado não se equipara ao antigo, ao pré-descoberta... E como poderia? Só o que resta então... é ceder à neblina, e andar na chuva. Prantear o solo que vaza, a água que flui sem rumo, despercebida. Que se salvem as aves, os animais da terra, as plantas(sem vida?). O legado do homem se aproxima, sem volta.
Friday, March 24, 2006
Thursday, December 15, 2005
Cinza
vejo cinza.
sou metade, sem metade
...talvez, saudade
do que foi, nao é mais e vai ser novidade
foi embora, ilusao.
só restou... inquietação?
fugiu-me toda a verdade...
o que se passa por entre esse abismo de preocupação...
alguma... novidade?
talvez, a outra metade...
não.
para sempre embora, e solidão.
vejo cinza
vejo só resignação.
sou metade, sem metade
...talvez, saudade
do que foi, nao é mais e vai ser novidade
foi embora, ilusao.
só restou... inquietação?
fugiu-me toda a verdade...
o que se passa por entre esse abismo de preocupação...
alguma... novidade?
talvez, a outra metade...
não.
para sempre embora, e solidão.
vejo cinza
vejo só resignação.